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  • Nostalgia faz URSS ganhar espaço nas roupas

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    27/11/2007

    Fortalecida pelo boom do petróleo que elevou o superávit comercial do país a mais de US$ 94 bilhões neste ano, a Rússia tem empregado sua força no exterior.
    Enquanto isso, no plano doméstico, os moscovitas jovens e ligados em moda vivem uma nostalgia por elementos comuns de suas infâncias soviéticas, relíquias de um tempo em que a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) estava no auge de seu status de superpotência.Isto poderia explicar por que um dos estilistas de moda mais populares nesta estação seja Dennis Simachev, que está vendendo sobretudos com botões com martelo e foice, bijuterias douradas cunhadas para parecer como kopecks soviéticos e camisas bordadas com o brasão soviético, completa com trigo.

    As pessoas na faixa dos 30 anos vêem estes tipos de símbolos como coisas que remetem a lembranças felizes, como as viagens aos campos de pioneiros onde conviviam, tomavam café da manhã juntas e praticavam esportes”, disse Simachev, 33 anos, cujo cabelo exibe um rabo-de-cavalo ao estilo samurai.

    Ele insiste que não é comunista -afinal, seus sobretudos custam cerca de US$ 2.100 e suas camisetas, cerca de US$ 600. Sua butique fica ensanduichada entre as lojas Hermès e Burberry na Stoleshnikov, uma das ruas de comércio mais caras da capital.Simachev primeiro chamou atenção com uma coleção de agasalhos olímpicos retrô adornado com CCCP, as iniciais em cirílico para URSS, e camisetas com imagens do presidente Vladimir V. Putin, que serviam como uma referência ao culto da personalidade que se formou ao redor do líder.Ao explorar uma geração que está experimentando uma crise de identidade, Simachev, que também é conhecido aqui como DJ, um praticante de snowboarding e piloto de uma moto Ducati, se tornou epítome de russo cool para um subgrupo da juventude dourada de Moscou.

    Ela lota o pub sob sua loja na hora do almoço e nas noites de fim de semana, quando ele se transforma em um clube noturno.Victoria Tirovskaya, 24 anos, diz que veste as roupas do estilista porque são chiques e um tanto audaciosas.

    “Eu tenho uma blusa clássica e shorts de Simachev, mas também tenho um moletom URSS”, disse Tirovskaya, uma designer de interiores. “Antes de Simachev, ninguém ousava usar o símbolo de nosso país como ícone fashion.”A ascensão do estilista como comissário do kitsch soviético casa bem com o atual abraçar da Rússia a políticas retrógradas e ao nacionalismo ressurgente. Um outdoor próximo da Praça Vermelha anuncia os resultados das eleições parlamentares, marcadas para o início de dezembro, como se fossem fato consumado: “Moscou vota em Putin!”Após mais de uma década de ocidentalização, na qual marcas internacionais inundaram o mercado russo e a elite russa passou a vestir estilistas de Valentino a Louis Vuitton, um movimento “De Volta à URSS” entre os consumidores parece um passo lógico, disseram alguns observadores sociais daqui.

    “A princípio, pessoas da minha geração queriam experimentar as coisas que nossos pais não puderam, mas agora que já vimos de tudo, nós estamos voltando às nossas raízes”, disse Evelina Khromtchenko, editora-chefe da versão russa da “L’Officiel”, a revista de moda francesa.Simachev desenvolveu um vocabulário de moda cheio de bravata exemplificado em sua moda masculina por chapéus e botas de pele, jaquetas com ombros musculares e calças com cós baixo. “Nós somos da Rússia, da ex-União Soviética”, ele disse. “É o que conheço, é o que me inspira, e agora, após anos de russos tentando viver um estilo de vida Ocidental e esquecendo que são russos, outras pessoas estão entendendo.”Diferente do americano de Ralph Lauren, com seu estilo confortável nascido nas universidades conceituadas, a evocação por Simachev do estilo pátria mãe freqüentemente incorpora elementos jingoístas de forma provocativa. Nos últimos quatro anos, ele desenhou coleções inspiradas na guerra na Tchetchênia, no boicote às Olimpíadas de Moscou de 1980, na Marinha Soviética e, nesta estação, nas gangues criminosas de Moscou dos anos 90.

    Os críticos interpretaram suas coleções como endossos, ou protestos, aos regimes antigos e atuais. Mas Simachev se descreveu como apolítico. “Eu sou um espelho do que está acontecendo ao meu redor”, ele disse.Ele acrescentou: “Ninguém quer voltar ao comunismo. Mas ele tinha certos atributos e símbolos que para as pessoas mais jovens não estão associados ao regime, mas com nossas próprias lembranças pessoais”.Os russos mais versados na história soviética se dizem atônitos com a comercialização dos símbolos do totalitarismo.

    “Pessoalmente, eu nunca vestiria algo de Denis Simachev porque, para mim, estes símbolos remetem ao terror stalinista, ao comunismo, ao sistema de espionagem da KGB e à guerra fria”, disse Alexandre Vassiliev, um historiador de moda que publicou 14 livros aqui. “Eu desaprovo totalmente.”Os fãs do estilista dizem que seus motivos são puramente comerciais. “Por que Andy Warhol pintava Mao Tse-tung ou Lenin? Por serem símbolos facilmente reconhecíveis”, disse Nicolas Iljine. que é especializado em intercâmbio cultural russo-americano para a Fundação Solomon R. Guggenheim.

    “Isto tudo é nostalgia pop em forma leve. Não tem um significado mais profundo.”As modas de Simachev lembram o uso irônico da referência a Mao pelo varejista David Tang de Hong Kong, que vendeu suas versões de kitsch comunista retrô no final dos anos 90, enquanto a China abraçava a economia capitalista global.Por ora, a grife de Simachev parece estar atraindo mais atenção que lucro. Com os russos ganhando em média cerca de US$ 550 por mês, poucos podem comprar produtos de Simachev. As roupas do estilista são vendidas em cerca de 30 butiques que trabalham com várias grifes e em cerca de 15 lojas no exterior, disse Anna Dyulgerova, diretora de desenvolvimento da grife.Os investidores por trás da grife são dois empresários de Moscou, Vadim e Vyacheslav Aminov, que se recusaram a revelar as vendas anuais ou o tamanho de sua participação na empresa.

    Vadim Aminov, 38 anos, disse que os dois esperam tornar a Simachev a primeira grife russa a conquistar reconhecimento mundial. Simachev já exibe suas coleções masculinas nas passarelas de Milão. Seu site, www.denissimachev.ru, é em inglês.Vyacheslav Aminov, 48 anos, disse que a grife já é famosa o suficiente para atrair imitadores. “Quando eu estava em uma praia na Sardenha, eu vi vendedores ambulantes vendendo camisetas Simachev falsas”, ele disse. “Eu tenho certeza que Simachev é o único estilista russo que é pirateado.”
    Natasha Singer (The New York Times)
    Em Moscou

    Pesquisa fotográfica – Comunidade Moda

    Tradução: George El Khouri Andolfato
    Visite o site do The New York Times

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