

Em matéria para o site No Mínimo, o repórter Luiz Antônio Riff revela a mais recente (e decerto mais hilária) briga judicial brasileira: a Daslu contra a Daspu:
Luiz Antônio Riff
“Um trocadilho virou motivo de discórdia entre o templo de luxo paulistano e a boca do lixo carioca. É que, quando resolveu criar uma confecção que gerasse uma renda para as prostitutas da Lapa carioca, a escritora Gabriela Leite teve a idéia de batizar a grife de Daspu. Mas na marginal Pinheiros, em São Paulo, na loja mais famosa do Brasil, ninguém riu. E a Daslu resolveu brigar na Justiça para impedir que o trocadilho batize as roupas feitas para vestir mulheres que ganham a vida se despindo.A Daslu entregou uma notificação extrajudicial para a ONG Davida, que bancaria a confecção, para que o nome Daspu não seja utilizado. “Não há nenhum tipo de preconceito contra a atividade da ONG”, declara Rui Fragoso, advogado da loja paulistana. Ele afirma que esse é um procedimento padrão de defesa da marca: “Ocorre sempre que surge uma empresa com um nome similar ao da Daslu e que possa causar confusão”.É difícil imaginar, entretanto, qualquer possibilidade de confusão entre as duas marcas. São dois mundos distantes, separados não apenas pelos 450 km de distância entre São Paulo e Rio de Janeiro. Afinal, pelo preço de uma camiseta da Daspu (R$ 20) não dá nem para entrar com o carro no estacionamento da Daslu (R$ 30 a primeira hora, se você não for cliente). O público-alvo também é bem diferente. O da Daslu é o da endinheirada elite paulistana, capaz de pagar até R$ 15 mil por uma jaquetinha de pelica D&G anunciada na inauguração da loja em junho. O da Daspu são as meninas de vida nada fácil que, em média, teriam que fazer vários programas por noite durante 15 meses seguidos para conseguir juntar esse dinheiro. Se os produtos, os preços e o público não poderiam ser mais diferentes, o que dirá de suas mentoras? A escritora Gabriela Leite não lembra em nada sua colega empresária Eliana Tranchesi. Artista plástica de formação, Eliana transformou a loja herdada da mãe (Lúcia, que fundou a loja com a amiga Lourdes, o que motivou o “das Lu”) na meca do consumo no Brasil. Nos seus 20 mil metros quadrados, a Daslu vende roupas exclusivas de grife própria e de outras 120 marcas chiques como Gucci, Chloé, Chanel, Prada e Louis Vuitton. Vende também outros produtos como vinhos, iates e helicópteros, e enfrenta um rumoroso processo por suspeita de sonegação e fraude.A Daspu não tem heliponto, como sua colega paulistana, nem vende marcas famosas. Aliás, não vende nada por enquanto. Sua primeira peça – uma camiseta do bloco carnavalesco Prazeres da Vida, organizado pela ONG – só será apresentada na segunda-feira, dia 5. A mulher por trás da Daspu é uma ex-estudante de sociologia que abandonou a USP e fez programas durante 11 anos. Hoje Gabriela Leite dirige a Davida, uma ONG voltada para as profissionais do sexo, realizando programas de prevenção de Aids (só no Rio são 4.120 mulheres atendidas).Paulistana de 54 anos, Gabriela começou a se prostituir na Boca do Lixo, em São Paulo, passou por Belo Horizonte e chegou à Vila Mimosa, no Rio de Janeiro. A prostituição foi deixada para trás. Assim com a militância no PT. Mas desilusão, diz que só teve com a segunda. Não que a decisão de assumir publicamente sua opção não tenha sido traumática. Sempre é: “Por mais que você tenha uma cabeça aberta, você está entrando no coração do estigma”. O mais difícil costuma ser a aceitação da própria família. “Minha mãe tem problemas até hoje com isso”, admite Gabriela, que não glamouriza nem condena a atividade. “É um trabalho como outro qualquer. Só que está associado à sexualidade”, define ela, reconhecendo a lógica capitalista de que “se existe a profissão, é porque existe demanda”.Ela diz que, como em qualquer outra profissão, ou quase toda, há coisas boas e ruins. “A ilegalidade do trabalho faz com que se viva em uma marginalidade grande. Muitas vezes há falta de higiene e não dá pra fazer reclamações trabalhistas para uma cafetina. Muitas preferem dar dinheiro para um policial a melhorar a vida das meninas.” Sua opção pela prostituição foi uma alternativa à vida de datilógrafa em escritórios do centro de São Paulo. Odiava acordar cedo e pegar ônibus lotado todo dia. Até hoje não gosta de andar em um. “E eu gosto da madrugada. Fazia meu próprio horário, conhecia pessoas… E sempre tive curiosidade sobre as coisas proibidas.” Foi uma rebeldia juvenil, segundo ela. Hoje a rebelde da família é uma neta adolescente. “Ela é punk”, ri Gabriela, que tem seu trabalho reconhecido internacionalmente e é representante da América Latina e Caribe no Conselho de Coordenação (PCB) do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids).Mãe de duas filhas, Gabriela não tem problemas com sua antiga profissão. Ao contrário, nunca teve o medo de dar a cara a tapa. Começou a organizar uma associação de defesa dos direitos das prostitutas quando ainda fazia programa. Foi no período da redemocratização, quando os movimentos sociais se reestruturavam. Não foi fácil, mesmo entre os militantes de esquerda e do movimento feminino havia preconceito e tendência a folclorizar a questão. Em 1987, por sua iniciativa, foi promovido no Rio o I Encontro Nacional de Prostitutas. Dele nasceram associações de classe em todo o país, reunidas na Rede Brasileira de Prostitutas –hoje já são 29 associações coordenadas por ela. No ano seguinte, Gabriela fundou o jornal Beijo da Rua, veículo de circulação nacional dirigido à categoria. A Aids acabou fortalecendo a causa. “Fomos o segundo grupo a assumir a luta contra a doença. Os primeiros foram os gays”, diz. Nos quase 20 anos em que organiza associações de prostitutas em todo o país ela vê avanços, principalmente no tratamento dado pela polícia, que costumava ser “extremamente violento”. Embora no interior do Brasil a situação não tenha mudado muito. Ela salienta, contudo, que há muitas realidades nessa atividade que tem um “leque diversificadíssimo” – abrange o luxo do Café Photo, em São Paulo, e o sexo por um prato de refeição atrás da Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Em qualquer caso, contudo, Gabriela diz que o melhor é sempre trabalhar por conta própria, sem patrão. Mas que a ilegalidade dificulta isso. “A gente não pode nem criar uma cooperativa de prostitutas”, lamenta ela, que apóia o projeto do deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ) que regulariza a situação da atividade. Por enquanto, uma cooperativa de costureiras é mais simples. E essa é a idéia por trás da Daspu. Gabriela admite que o nome é uma alusão à Daslu. E que a idéia é transformar a grife em um negócio rentável para “as meninas”. Inicialmente 22 prostitutas serão responsáveis pela confecção das roupas. Cada uma produzirá em casa. Uma parte do faturamento irá para os projetos de prevenção.O plano da Daspu é ter três linhas: de festa, figurinos básicos e os de uso na “batalha”. Sonhos há muitos. Que as peças sejam usadas não apenas pelas prostitutas, por exemplo. “Eu gostaria de algo moderno, de bom gosto, criativo e coerente com a nossa luta”, afirma Gabriela, que sorri feliz com a possibilidade de a grife participar das semanas da moda no Rio e em São Paulo. Não só. “Quem sabe a gente não tem as nossas coisas vendendo na Daslu?”, sonhava ela antes de receber a notificação extrajudicial. Agora não sabe nem se conseguirá usar o nome escolhido ou terá que encontrar outro. A realidade das prostitutas não tem glamour.”
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